Media Training e Comunicação Pessoal | Aurea Regina de Sá

Fiquei desesperada e me comuniquei para pedir ajuda 

O que eu vivi na última sexta-feira não desejo pra ninguém. Foi um dos dias mais tensos da minha vida. Eu vou te contar, porque afinal o meu desespero já se tornou super público; saiu até na imprensa.

Na quinta, meu filho saiu do colégio às 18h30, manteve contato comigo pelo Whatsapp até as 21h30 dizendo que estava com amigos e que dormiria na casa de um deles. Eu não aceitei a ideia, pedi que voltasse pra casa, mas ele não me dizia onde estava e se recusava a me obedecer. Depois sumiu! Não atendia mais o celular, e nem via as mensagens no app. Eu fiquei desesperada, porque não sabia onde procura-lo.

Às 7h da manhã, fiquei sabendo que ele não tinha ido à escola e o amigo não sabia onde ele estava, ou seja, ele não dormiu na casa do rapaz. Saí pra procura-lo e estive em todos os lugares que imaginei que ele pudesse ter passado. Nenhuma pista.

Fiz a comunicação no 190, às 8h da manhã, e depois registrei um B.O. na delegacia eletrônica da Polícia Civil. Um policial me telefonou e pediu que eu publicasse o desaparecimento dele nas redes sociais. Confesso que hesitei um pouco e continuei procurando do meu jeito: liguei para todos os amigos e pais de amigos do meu filho (eu tenho o telefone de todos, até dos que moram fora da cidade e também dos ‘amigos de internet’ com quem ele se relaciona há anos) e não consegui nenhuma informação.

Tive o pressentimento de que ele estaria na casa de uma menina, amiga dele. Mandei mensagem pra ela e não me respondeu.

As horas iam passando e a minha agonia ia ficando cada vez maior. Eu já havia me comunicado com muita gente. A cada contato, eu contava toda a história e pedia ajuda para procura-lo, mas ainda não havia feito tudo.

As imagens de cenas ruins vinham a todo momento na minha cabeça e eu deletava. ‘Isso não pode ter acontecido’, pensava. Chorei algumas vezes, mas quando sentia que o desespero estava tomando conta, eu reagia para não cair. O que me deu muita força foi o apoio que tive. A minha irmã esteve do meu lado o tempo todo e à medida em que a divulgação tomou corpo, comecei a receber o apoio de amigos e passei horas atendendo o telefone.

Até que publiquei no meu perfil do Facebook. Cinco minutos depois já havia 600 compartilhamentos. Algumas horas mais tarde, eram 12 mil. Que proporção aquilo tomou, foi assustador. A imprensa começou a ligar e, apesar da ajuda, eu fiquei mais apavorada. Será que o pior tinha acontecido? Eu me recusava a aceitar uma tragédia.

Por volta das 14h recebi uma mensagem do Luiz: ‘mãe, que alvoroço imenso, desculpe. Quero que saiba que estou bem’. Senti uma mistura de alívio e raiva, e pude perceber que ele não tinha noção do que tinha feito.

Fui busca-lo na casa da tal amiga, pude abraça-lo de novo e conversamos muito. Ainda bem que tudo terminou da melhor forma, porque a dor que senti foi muito grande. Passei um dia muito estressante, mas tive a apoio de uma rede imensa de pessoas. Recebi contatos de gente do Brasil todo e até do exterior, falei com amigos, conhecidos das redes sociais e pessoas totalmente estranhas que entraram em contato para se solidarizar e dizer que estavam em oração e ajudando a divulgar.

Uma vibração de solidariedade e amor, que nunca tinha vivido antes, tomou conta de mim. Eu vi a empatia em ação em quase todas as pessoas. Só li 1 comentário no Face que me julgava: ‘tem alguma falha aí’. É lógico que a falha era da mãe, da educação que ela dá ou que não dá, mas confesso que não considerei, porque só eu sei o que vivo desde que meu filho nasceu para cria-lo e educa-lo da melhor forma possível.

Perceba que tudo que envolve o processo de comunicação está nessa história:

– a visibilidade imensa por conta da divulgação;

– a vulnerabilidade em relação aos riscos que meu filho correu e a minha por estar totalmente exposta na internet;

– o risco de julgamento. Sim, nessa hora é fácil botar o dedo na cara do outro, mesmo sem conhecer os bastidores;

– a vergonha por ter acionado uma rede imensa, que envolveu os contatos das redes sociais, a imprensa e a alta cúpula das polícias civil e militar;

– o medo de essa história não terminar bem.

Tudo o que vive um comunicador no momento de exposição eu senti naquela sexta-feira. E, olha, que eu não tenho medo de me expor e faço isso a toda hora; agora, por exemplo, porque estou me expondo muito aqui ao contar parte da minha vida privada.

Ou seja, quando nos mostramos estamos arriscados a tudo isso, mas como em tudo na vida há uma escolha. Para não passar por isso, eu poderia não ter falado com amigos, não ter registrado ocorrência policial e não ter divulgado nas redes sociais para não me expor e não mostrar fragilidade, e com isso talvez eu sentisse:

– mais medo por não ter ajuda;
– menos chance de conseguir encontra-lo;
– um pânico ainda maior por achar que realmente não o encontraria;
– fraqueza por não encontrar a saída.

A sua exposição vale a pena na medida do valor que há naquilo que você mostra.

Como meu filho está acima de qualquer coisa pra mim, valeu a pena ter mostrado meu frágil momento abertamente.

Quer saber o que ganhei com isso?

  • mais autoconfiança de que posso mostrar mais de mim, porque continuarei sendo aceita, afinal todos somos imperfeitos;
  • muito amor de tanta gente! Ex-colegas de trabalho, ex-alunos, atuais e antigos clientes entraram em contato para me dar uma palavra de apoio e carinho. Meu filho também se sentiu acolhido e disse nunca ter imaginado que tanta gente gostava dele;
  • mais contatos, porque falei com gente que nem conhecia e isso abriu caminho para um relacionamento pessoal, comercial, social;
  • a certeza de que o mundo tem jeito, afinal tanta gente treinou a empatia quando se colocou no meu lugar e tentou me confortar dizendo: ‘sou mãe também, sei como são os adolescentes’, ‘você vai encontra-lo bem, tenha fé’, ‘vai dar tudo certo, Aurea, estamos com você’.

A todas essas pessoas, eu só tenho a agradecer. Eu me senti muito acolhida e agradeço pelos minutos que cada um investiu pra nos ajudar.

Depois do susto que levei, o resumo que faço dessa história é que sempre vale a pena.

Obrigada a você também por ter lido essa história! 🙂

 

 

Aurea Regina de Sá

Aurea Regina de Sá é jornalista e coach de comunicação, especializada em Media Training.

comentários

  • Infelizmente não vi sua postagem no Facebook, pois também tenho me afastado um pouco das redes sociais, mas agora que li seu texto, ele me fez recordar uma situação quase idêntica que passei e, na época, sem redes sociais para se acionar contatos e amigos e amigos de amigos… enfim, compartilho com você este sentimento de que se mostrar, se expor, pedir ajuda, sempre pode nos surpreender e trazer bons ensinamentos. E, nestas horas, podemos ter certeza que a empatia ainda nos permeia, ainda há esperanças que o mundo pode ser melhor .. Que ótimo que tudo terminou bem para você e seu filho! Beijo

  • Áurea,
    Parabéns pela coragem e confiança em dividir esse momento, sua história, recheada de aprendizados.
    Uma jornada com começo, meio e final…feliz 😉
    Um abraço carinhoso!

  • É uma história com uma profunda reflexão… Figura pública ou anonimato, todos temos sentimentos iguais ou parecidos, independente da posição social, somos todos humanos e sujeitos a tudo neste mundo. Mas o fato ocorrido nos leva a refletir que nem todos são iguais, que é a minoria que ainda sim não tem empatia, que o amor e o bem ainda é a maioria em meio a todo mal que vivemos neste mundo.

    Obrigada por compartilhar Áurea !

  • Que lindo Áurea!
    Eu entendo o seu sentimento pois sou também sou mãe. Já passei por situações muito difíceis onde encontrei muito amor quando me abrí meu coração para as pessoas. Cresci e me senti mais forte.
    Por amor fazemos tudo que está ao nosso alcance e sem medo. E é disso que precisamos para um mundo melhor. Também tenho fé que um dia viveremos num mundo melhor
    Receba o meu carinho.

  • Que texto! Falou fundo aqui comigo. Eu fechei meu Facebook por um tempo, não fiquei sabendo do seu dia de terror, mas ao ler agora seu texto sobre o episódio, eu pensei duas coisas:
    1) sou muito fã dessa mulher! Cada dia mais!
    2) Ahhhhh se eu fizesse isso com minha mãe, nem sei viu! Rsrs

    Acho que você poderia escrever outro texto sobre como lidar com a raiva e manter uma comunicação positiva nesses momentos!

    Beijos e muito grata por sua partilha e exposição!

AUREA REGINA DE SÁ

Jornalista e Coach de Comunicação, especializada em Media Training.

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